terça-feira, 9 de setembro de 2025

Diário de adoecimento

 

Bom dia.
Tenho pensado muito sobre as transformações na minha vida e sobre esse processo de adoecimento emocional. Vivo uma grande contradição: por um lado, sinto-me mais equilibrada por não buscar nos outros — ou em amores fugazes — a cura do meu vazio. Por outro, não consigo preenchê-lo.

Passo horas, principalmente à noite, rolando a tela do Instagram. Busco lazer, distração, algo que me interesse. Acabo perdida em reels de fofocas de famosos, e, quando percebo, a ansiedade já tomou conta: acendo um cigarro atrás do outro e começo a listar planos, projetos, rotinas possíveis… mas no fundo sei que o que me falta é justamente uma rotina.

E aí me pergunto: quando, de fato, tive uma vida regrada? Quando fui capaz de dizer para mim mesma: “agora estou feliz”?

Sinto falta do meu filho ocupando a casa. Essa é talvez uma das maiores frustrações: ele não morar comigo. Eu sonhava que, depois da separação, teríamos nossa casa, um quarto para ele, um espaço nosso. Conquistei alguma estabilidade financeira e hoje poderia oferecer parte desse sonho, mas ele, já adolescente, decidiu viver com o pai. Entendo, a rotina dele é puxada com os estudos, mas isso me deixa com dias vazios.

Se antes liberdade para mim era poder estudar, ter independência financeira, viver minha sexualidade e ter tempo para mim, hoje me pergunto: o que é essa tal liberdade?

Fico perdida em coisas simples, como tirar o lixo ou lavar a louça. Tenho medo de me tornar acumuladora. Tenho estantes cheias de livros que sonhei um dia poder ler com calma, mas me falta concentração. Penso em sair para museus, parques, caminhar na rua, viver a cidade… mas a inércia me toma, como se eu estivesse em luto.

E talvez seja isso: estou cercada de lutos. As duas amigas que perdi e que eram parceiras de risos. A vida de família que sonhei e que não se realizou. Amores idealizados que se transformaram em traumas. O pai distante que não mudou e reforça em mim o sentimento de não merecer amor. A mãe que precisa tanto de cuidado quanto eu, mas me coloca sempre nesse lugar de inadequada.

E então vem o trabalho. No espaço em que me coloco como protagonista — a educação —, encontro uma realidade tão dura: escola pública precarizada, famílias empobrecidas, adolescentes que me lembram de mim mesma na busca por liberdade e, ao mesmo tempo, por afeto e cuidado. Como suportar essas dores todas e ainda encontrar energia para resistir nesse mundo doente?

Às vezes sinto que apenas espero o tempo passar. Não me vejo como suicida, mas percebo que já não busco a felicidade como antes. Ela já foi mais viva em mim, pulsava em detalhes simples: olhar as plantas, sentir o vento, a chuva, o mar. Hoje, tudo isso parece distante.

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