terça-feira, 30 de setembro de 2025

rascunho de inquietAÇÃO

 não consigo aquietar

mesmo deitada, cansada, sonada.

a mente insiste em falar,
tagarela que não silencia.

e lá vou eu levantar:
procurar um doce,
um cigarro,
rolar o feed de notícias,
mandar memes para as amigas…
e nada de se aquietar.

ensaio exercícios:
nadar, correr, pedalar.
mas desse tédio mental que me toma
resta, no dia seguinte,
um check list daquilo que pensei.
e isso já é uma vitória.

nunca pensei
que a ansiedade fosse generalizada —
generalizada pra dentro e pra fora.
outrora achei
que era apenas um jeito de ser.

hoje, inquieta,
nada sei.
só penso.
penso muito.

COLAPSOS

 A medicação que eu não considerava necessária parece que fez efeito. Quando entorpecida pelos comprimidos, consigo até ter sonhos. Meu trabalho agora é aprender a ter uma rotina saudável, para que eu possa voltar de licença de cabeça erguida.

Fico a me perguntar se meu jeito é o problema, se eu sou permissiva, se desorganizada, se faço demais ou de menos. E percebo que o sistema é feito para que as pessoas colapsem, para que haja uma crise de subjetividade. E eu fico questionando o que é saúde e o que é felicidade.

Me sinto bonita, sensual, inteligente, mas fico, ao mesmo tempo, a questionar isso. Ao me vestir, penso sempre que estou com a roupa inadequada para a ocasião. E mesmo fugindo dos ditames da moda e dos padrões, eu quero ser aceita, em algum lugar.

Não sei se os comprimidos são meras ilusões de um sistema que, em colapso, faz com que quem é sensível surte.

Soneto da Esperança

 


A felicidade é pote de ouro no fim do arco-íris,
ou o olhar profundo de uma criança em meus sentires?
Em meio a tantas contradições, respiro esperança,
buscando um lugar seguro onde minha vida se lança.

Sonhar futuro, aconchego e desejo,
quem sabe encontrar no amor seu ensejo?
Algo espiritual que meu sonho revela,
e a dor da partida transmuta, e se vela.

Se a vida é finita, sortilégio persiste,
respirar mares, oásis que minha alma assiste,
no curso do rio aprender a viver.

Entre poços, lagos e quedas ligeiras,
semear sonhos, multiplicar ideias,
e resistir sempre, agarrada ao esperançar.

Diário de adoecimento II - processo de cura

 São Paulo, 30 de setembro de 2025

Imagine pensar em sua vida, em como ela mudou, se colocando no lugar de uma mulher de quase quarenta anos, carregada de experiências, histórias de alegrias e dores, que moldaram seu caminho e suas escolhas.

Imagine que, frente a tantas experiências, descobriu sua identidade na educação. Foi o que aconteceu comigo. Ser educadora me trouxe sentido, me deu propósito, mas também me exigiu tanto que acabei me perdendo de mim mesma. Deixei de cuidar do meu corpo, da minha alimentação, da minha saúde, e entrei numa rotina automática, quase apática. Sempre tive sorrisos largos e aspas nas bochechas, mas percebi que esse brilho foi se apagando; meu corpo amorteceu... e nada teceu.

E então, veio o inesperado: uma licença médica. Burnout. Algo que nunca pensei viver, principalmente sendo alguém tão ativa e frenética. Agora me encontro diante de uma jornada nova – a da cura. Pausar a vida, suspender a rotina do trabalho na educação, tornou-se inevitável. Procuro descobrir o que me dá prazer, mas não como uma adolescente inconsequente; e sim como uma mulher que entende que a vida é presente, que merece ser nutrida, refletida e escolhida com cuidado.

Sempre tive a impressão de que o espiritual se revela quando consigo contemplar a vida sem pressa: olhar para o nada, sentir a natureza, desfrutar do ócio — mesmo que isso seja desafiador em meio ao concreto e à correria da cidade grande.

É um desafio constante equilibrar o espiritual e o material. A vida pede corpo e mente: boa alimentação, exercícios, uma rotina de bem-estar. Parece simples, parece até um privilégio, mas para mim não é. Minha ansiedade me leva fácil à procrastinação e ao tédio. Nos intervalos, escrevo, converso, busco um norte que possa apaziguar essa ânsia e, quem sabe, trazer algumas respostas.

Uma amiga me disse outro dia que relações exigem trocas. Tenho pensado nisso. Talvez este seja também o tempo de reconstruir vínculos, ressignificar o amor e erguer um castelo de sonhos e utopias possíveis.

Sigo, dia após dia, na jornada de me curar.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Diário de adoecimento

 

Bom dia.
Tenho pensado muito sobre as transformações na minha vida e sobre esse processo de adoecimento emocional. Vivo uma grande contradição: por um lado, sinto-me mais equilibrada por não buscar nos outros — ou em amores fugazes — a cura do meu vazio. Por outro, não consigo preenchê-lo.

Passo horas, principalmente à noite, rolando a tela do Instagram. Busco lazer, distração, algo que me interesse. Acabo perdida em reels de fofocas de famosos, e, quando percebo, a ansiedade já tomou conta: acendo um cigarro atrás do outro e começo a listar planos, projetos, rotinas possíveis… mas no fundo sei que o que me falta é justamente uma rotina.

E aí me pergunto: quando, de fato, tive uma vida regrada? Quando fui capaz de dizer para mim mesma: “agora estou feliz”?

Sinto falta do meu filho ocupando a casa. Essa é talvez uma das maiores frustrações: ele não morar comigo. Eu sonhava que, depois da separação, teríamos nossa casa, um quarto para ele, um espaço nosso. Conquistei alguma estabilidade financeira e hoje poderia oferecer parte desse sonho, mas ele, já adolescente, decidiu viver com o pai. Entendo, a rotina dele é puxada com os estudos, mas isso me deixa com dias vazios.

Se antes liberdade para mim era poder estudar, ter independência financeira, viver minha sexualidade e ter tempo para mim, hoje me pergunto: o que é essa tal liberdade?

Fico perdida em coisas simples, como tirar o lixo ou lavar a louça. Tenho medo de me tornar acumuladora. Tenho estantes cheias de livros que sonhei um dia poder ler com calma, mas me falta concentração. Penso em sair para museus, parques, caminhar na rua, viver a cidade… mas a inércia me toma, como se eu estivesse em luto.

E talvez seja isso: estou cercada de lutos. As duas amigas que perdi e que eram parceiras de risos. A vida de família que sonhei e que não se realizou. Amores idealizados que se transformaram em traumas. O pai distante que não mudou e reforça em mim o sentimento de não merecer amor. A mãe que precisa tanto de cuidado quanto eu, mas me coloca sempre nesse lugar de inadequada.

E então vem o trabalho. No espaço em que me coloco como protagonista — a educação —, encontro uma realidade tão dura: escola pública precarizada, famílias empobrecidas, adolescentes que me lembram de mim mesma na busca por liberdade e, ao mesmo tempo, por afeto e cuidado. Como suportar essas dores todas e ainda encontrar energia para resistir nesse mundo doente?

Às vezes sinto que apenas espero o tempo passar. Não me vejo como suicida, mas percebo que já não busco a felicidade como antes. Ela já foi mais viva em mim, pulsava em detalhes simples: olhar as plantas, sentir o vento, a chuva, o mar. Hoje, tudo isso parece distante.

domingo, 7 de setembro de 2025

Exaustão

 Perturbações da vida

Se há trabalho
Rotina
Sem rotina
Bagunça
Tem preguiça
Exaustão
Cansaço
E as vezes rola demissão
Preocupada com a reação
Dos racistas, fascistas
Machistas deste mundão
Divagar conexão
Pra aumentar a produção?
Perturbações da vida
Vem São João
Aquecer coração
Fogueira queimar
Canalhas do centrão.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Burnout ação - O dia em que o corpo disse basta

 

Há alguns meses comecei a me sentir sem energia. No início, culpei a falta de vitaminas, a ausência de atividade física — coisas que alguém com fibromialgia não pode simplesmente deixar de lado. Mas havia algo estranho: mesmo com a medicação em dia, a fadiga permanecia, insistente, como uma nuvem cinza que não se desfazia.

Sempre fui sensível às questões sociais. E, como vivemos em tempos de guerra, crise política e econômica mundial, pensei que o que me abalava fosse algo distante, maior do que o meu dia a dia. Mas percebi que não. O peso vinha do micro, da rotina que me cercava dentro dos muros da escola.

Coordeno uma unidade com 890 estudantes, só no período da manhã. E nesse cotidiano se acumulam tensões: crianças com deficiência que chegam desreguladas, exigindo um olhar atento e cuidadoso; relações de trabalho desgastadas, algumas até violentas no tom e na forma de trato; e, sobretudo, uma geração de crianças e adolescentes atravessada por sérios problemas de saúde mental. A população atendida pela escola é, em si mesma, o retrato de um Estado que falha em garantir dignidade: famílias precarizadas, jovens sem horizonte, professores sobrecarregados.

Neste ano, ainda enfrentamos uma greve da educação que não nos trouxe grandes vitórias. Fomos punidos com descontos pelos dias parados, e a promessa das reposições se transformou em um peso a mais: para recuperar o salário perdido, era preciso devolver o tempo em jornadas já esgotadas. O ambiente de trabalho ficou ainda mais tenso — entre o desalento coletivo e o esforço individual de sobreviver ao cotidiano escolar.

A vontade de permanecer na cama foi crescendo. O que antes era exceção, virou regra. Até que um dia decidi procurar ajuda. Sentada diante da psiquiatra, contei sobre o sentimento de incompetência, de desvalia, da procrastinação que parecia engolir meus dias. Falei do medo constante de ser uma impostora, do apetite que desapareceu, da falta de disposição para me exercitar, para sair com as amigas, para conhecer gente nova, para simplesmente estar no mundo.

O diagnóstico veio com um nome que eu já tinha ouvido, mas nunca pensei que um dia me alcançaria: síndrome de burnout.

Um mês de afastamento. Um mês para criar uma rotina de autocuidado. Um mês para reaprender a viver sem o relógio da escola me controlando, sem o barulho do corredor me cercando, sem o peso das cobranças me esmagando.

Mas não é simples. O workaholic dentro de mim grita, pede tarefas, metas, resultados. E eu, perdida, tento silenciar essa voz que me empurra para o abismo da exaustão.

Estou reaprendendo a desacelerar. Talvez, pela primeira vez em anos, eu esteja sendo obrigada a ouvir meu corpo, meu silêncio, minha própria vulnerabilidade. Não sei ainda o que virá, mas talvez a lição esteja justamente em admitir que não sou máquina.

O corpo disse basta. E agora é hora de aprender a cuidar de quem sempre cuidou dos outros: eu.