Partindo de uma postura
ética: ter sinceridade nas relações, eu questiono se é necessário expor tudo
aquilo que se sente? De alguma forma nesses tempos estranhos que infelizmente
não consigo defini-los em poucas palavras, suponho apenas que estamos muito
mais preocupados em nomear ações, sentimentos, atitudes do que vivenciá-los de
forma simples e genuína.
Pensar sobre o algo
ocorrido, antecipar ações, remoer passado, mesmo que seja um passado recente,
tornou-se uma tocante pra além de simplesmente sentir e encarar de forma
corajosa o que se sente. E isso gera um estresse desnecessário, e uma tendência
a fantasiar a realidade do que simplesmente vivenciá-la.
Leio em blogs uma série de
dicas de como fazer com que uma relação casual não seja apenas uma relação
casual. Blogs das mais diversas naturezas, com recortes feministas e com
recortes consumistas.
Examinemos os primeiros, que
são os que mais me interessam a leitura.
Nestes, discutem-se
possibilidades de relações menos opressoras, mais sinceras, mais democráticas.
Muitas das dicas se relacionam com o não diálogo e com o diálogo. E esses dois
marcados pela ideia que criamos da discussão de relações.
Os blogs feministas têm a
tendência de enfatizar a necessidade do diálogo, no entanto discutir relações,
ter aquela famosa DR, principalmente
para o homem, monogâmico, heteronormativo e blablá... soa pejorativo...
Tenho algumas impressões de
que quando se discute relações, de alguma forma busca-se identificar a origem, o porquê, ou mesmo o culpado do
erro, do não dar certo.
Será
que as pessoas não querem ou não sabem se relacionar?
Voltando para o tema ou possibilidade da ética das relações, e aquilo
que eu denomino da minha ética das relações afetivas.
Tento me pautar na ideia de não
coisificar as pessoas, não
padronizar comportamentos, não generalizar atitudes e acima de tudo não criar falsas expectativas. De repente, percebo que minha ética me desumaniza e soa contraditória.
É humanamente compreensível criar expectativas, é humanamente compreensível
fantasiar e projetar histórias.
Nesse sentido, sinto como se
eu perdesse valores, que inicialmente me pareciam saudáveis naquilo que
tangencia minhas relações de afeto. Minha
ética precisa ser repensada, e repensando penso escrever algumas linhas
sobre algumas questões recorrentes, e que pelo momento consigo nomear como sofrimento.
Sim, em alguns momentos eu
crio muitas expectativas, expectativas de reencontros, expectativas de palavras
afetivas e calorosas soltas no ar, leveza nas relações, há expectativas de uma relação romântica e um grau harmonioso
de reciprocidade e cuidado.
Sim, perco a mão da espera,
da paciência e do desapego quando me sinto rejeitada, e isso tem relação com
uma imaturidade de lidar com o julgamento alheio. Mas também tem relação direta
com o ideal romântico destacado acima que impõe e imprime na minha heteronormatividade compulsória a
prática da espera e a sensação de rejeição
quando não sou correspondida, escolhida.
Para mim, estar numa relação
afetiva com alguém não é uma prioridade,
e sim uma necessidade social, como
tantas outras. Porém como perdi de vista um modelo de relação, por
questionar a monogamia, a heteronormatividade compulsória, tenho me arriscado a
conhecer diferentes pessoas, e vivenciar outras possibilidades de me
relacionar. O que noto é como ainda me
coloco em relações heteronormativas, ou seja, com homens, esses não estão dispostos a se relacionar de uma maneira
mais sincera e humana possível, assim reproduzem os papéis, ou se mostram
perdidos, porque os papéis se tornaram mais fluidos, menos demarcados e
impositivos. Desta maneira será que eles estão dispostos a vivenciar relações
mais democráticas? Inclusive em desenvolver um grau de empatia, e compreender e acolher meus limites?
Meus limites não são
mensuráveis ou imutáveis, tem novamente uma tentativa de articular com eles
valores éticos, de respeito, autoamor, avaliação e esperanças.
Não pretendo deixar de viver
um momento presente com os amigos para resolver algo que me abale.
As amizades, família,
filhos/as são prioridade, e as relações sociais que tenho anterior a essa
relação afetivo / sexual precisam ser mantidas e são importantes.
Prefiro estar nessas
relações, mais consolidadas, sólidas e construídas, do que estar com minha
relação afetivo / sexual.
Não pretendo mudar meus
planos de curto e médio prazo por eu ter conhecido alguém especial, se é
viável, vou tentar conciliar os planos com essa pessoa, de acordo como o
relacionamento avança.
Adoro fazer sexo, adoro
fazer sexo, e sim, se a relação sexual for ótima, gostaria de me manter próxima
a essa pessoa. Mas não tenho uma
educação para sexo virtual. Tenho uma ética que procuro estar presente na relação, sendo assim
evito transar com várias pessoas quando me proponho a me relacionar com alguém,
para conter energia para essa pessoa. E evito me colocar em relações virtuais
que se distanciam daquele propósito inicial de sinceridade, e imprimem um certo
grau de fantasia, que pode me gerar angustias,
ansiedades e inseguranças, pela
fragilidade da relação.
E se bater a saudades?
Saudades e não carência?
Gosto de ligar, de querer
saber como a pessoa está, e serei direta propondo um encontro. Se a pessoa
disser que não, irei compreender até o momento que a pessoa queira realmente me
ver. Mas tudo isso gera sofrimento.
Se os afastamentos,
ausências e indiferença são constantes, sem motivo aparente eu vou me repensar
primeiro. Mas eu me repensar antes de acusar, ainda vai gerando fantasias
desnecessárias, inseguranças absurdas, e me lembra em muito alguns pontos
colocados pelo texto O mito do
relacionamento sem cobranças,
e quando menos percebemos estabelecemos concessões dentro de relações e
perdemos a dimensão de que essas concessões nos levam ao sofrimento.
Percebo que essa ética do
desapego, essa ética do cuidar de si e pagar
de descoladinha não condiz com a realidade de não privilégios.
No
mundo caótico, egoísta e erotizado, situações como traições, falta de
sororidade, competição e intrigas são recorrentes.
Gente se intrometendo, querendo dar conselhos, dizendo o que é certo ou errado
está cheio. Muitas vezes no ambiente feminista, em que buscamos apoio,
encontramos diferentes julgamentos: trouxa, boba, que não se valoriza. Como
filtrar tudo isso?
Como permanecer presente sem
o medo da rejeição, da troca, do
ciúmes, sem stalkear o outro, sem querer supervisionar o outro? E ao mesmo
tempo identificar que um relacionamento sem trocas, sem satisfações é ilusório?
Rever
a romantização das relações é um caminho, porém cruel, porque nega a
possibilidade de ser sincera com as angustias latentes. Ou perceber que ainda
quando não cobramos, estamos sobre a égide de um pensamento romântico que
supera a falta de cuidado do outro e reproduz o modelo princesa e príncipe
bruto.
Em outro momento acreditei
que tudo isso poderia ser superado com autoamor, autocuidado e um bom grau de
segurança, no entanto isso é cruel. Relações, são relações, precisam superar o
egocentrismo, a heteronomia, e caminhar para outro nível de maturidade, que implica
no diálogo com outro. Ainda mais cruel, quando constatamos lá no inicio que tornou-se
pejorativo e próprio do gênero feminino cobrar DRs, quando deveria ser uma
necessidade humana dialogar sobre problemas latentes. Aqui não quero dizer que
em relações homoafetivas não existam esses mesmos problemas, mas possível que
muitas devam seguir padrões inicialmente heteronormativos, e ao tentar (dês)
construções, explicitar esses mesmos conflitos.
Percebo uma latente no
contexto masculino de não falar de sentimentos, de evitar discussões, como se
assim os problemas fossem resolvidos. Penso muito na relação de não diálogo com
a relação de infância... com a dificuldade de expor sentimentos através de
palavras, de nomear as coisas...
Nesse momento retomo a questão:
é necessário expor tudo que sente? Se proteger, esconder-se, repelir,
agressividade, não cobrar, não traz consigo uma ética do autocuidado? Homens se
autocuidam? Ou essa ética ainda transpassa a indiferença, a falta de
compromisso, a irresponsabilidade?