quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Da série fora de série II

Hormônios e democracia ratatatá [aproximações]

Meus hormônios gritam ah...
Quero descansar... quero agitar
Quero militar!!!
Militância não é ignorância,
Mas pra quê perder tempo
Pra quê ler cara barbado?
Cara barbado é machista.
Logo não precisa entender nada de economia pra ser comunista.
É algo meio que praticista
Você sai e incorpora a pauta...
Qual é a pauta?
O que é que está em pauta?
Diretas já?
Pra legitimar democracia de blablá?
Democracia de ratatatá?
Democracia pra comprar?
Sei das boas índoles
Das boas ideias
Das boas trepadas...
Ai as boas trepadas...
Meus hormônios gritam:
Chega de história furada
Chega de mina estuprada
Chega de pseudoboatrepada
Chega dos caras não proporcionarem uma boa gozada.
Sei das boas índoles.
De militância sincera...
De boa síntese da realidade
Mas tá difícil, tá difícil entender
Tá difícil não misturar
A falta do gozo
Com o povo
Uma multidão na rua
E misturar classe trabalhadora
Trabalhador na multidão
E sem recorte...
Sem mote
Sem norte
Sem sorte

Sei que tem algo acontecendo
Sei que tem algo acon-tecendo
Sei que tem algo a conta sendo...
Muito alta pra nós!!!
O salário muito pouco pra nós
Pra nós tudo é pouco
O tempo
O gozo
O alimento
gostoso...
Gosto
Gosto
Gosto de ler textos sobre fofocas
Fofocas brancas, claras, blasés
Hahaha e de esquerda...
Qual a diferença da monomania
Pra revistas caras?
É que tem uma imprensa alternativa não comercial?
É que essa fofoca não produtinho?
Essa fofoca coloca em xeque o que?
Sem pauta
Sem mote
Sem norte
Indiretas Já...
Misturei tudo...
E diariamente
Ratatatá



Da série fora de série


Senta que lá vem história 

Nessa história mal contada
Tá tudo parecendo piada
Mentira inventada
Pra uma série enlatada
Incertezas e dúvidas
Entre sair a rua e dormir 
Entre beber, e não se divertir 
E se apaixonar 
Mas não está nem aí
Comentar sobre a novela 
Que eu não assisti
Gritar 
e ninguém te ouvir
Nessa história sem história
Declararam o fim da história
Proclamaram a república inglória
Em meio a uma ditadura democrática
Em que a herança é meritocrática
E você não é proprietário
Porque não se tornou mercenário
É um pobre prestador de serviços
Motorista de uber
Diarista da escola...
Trabalho é quase que pedir esmola
E vida é sem qualidade nenhuma
Nessa falta de qualidade 
Todo mundo é mau caráter
Que nem pra perder o tempo
Galinhando na boate
É mais fácil ir direto aos tomates 
E deixar eles rolarem
Onde? 
Nesse mundo virtual a ladeira
É uma visualização
Visualizou gamou...
Não visualizou... deletou
Nesse mundo de crise 
Sem crise (quem ta em crise?)
Todos namastê goodvibes
Tomando seus remédios
Pra sair do tédio...
Nessa falta de história
Nessa falta de likes
Nessa falta do que fazer...
Mas com tempo pra escrever 
Nada clichê
Nada sobre você
Algumas linhas
Algumas teses?
Pra que tese? 
Não precisa aprofundar nada
Texto, hipertexto... história
Tudo superficial
Tudo imediato
No ato
No fato
Esqueci... 
Esquecemos 
A história
A piada
A crise... que crise...
Ah aqueles seus 20 poucos 
30 e poucos
40, 50, 60 e tantos
Na labuta... talvez aos 70
Você se senta
E se lembra que não viveu história nenhuma
Nenhuma história 
Porque nem teve tempo de contar a sua...








A variável tempo no meu processo de escrita

Introdução?
Muitos sabem que minha formação universitária inicial é em jornalismo, no entanto, atuei sempre como amadora, por meio de trabalhos universitários, e num esboço autoral com um fanzine no ano de 2005, depois disso não mais comunicóloga.
Atualmente sou Pedagoga, e tenho atuado na educação em várias frentes, na educação formal e continuada, e por meio da minha área de pesquisa, Movimentos Sociais e Educação, como se fosse uma identidade secreta essa segunda atuação.
Também sou militante do feminismo materno, e mantenho esse blog para ser um espaço para algo que eu sempre gostei de fazer: escrever.
No entanto não sei como categorizar meu texto e tenho pensando sobre isso.
Nesse sentido acho que sou um tanto acadêmica, e por isso essa retomada de ideias nesse post pode ser chamada Introdução?

Desenvolvimento de uma ideia
Tenho olhado para os meus escritos e pensado muito em como as redes sociais, os suportes em que é possível veiculá-los são interessantes. Fiz duas publicações no facebook essa semana que entendo como prosa-poética, ou processo de criação poético não linear, porém com estrutura narrativa... detalhe: não sou da Letras, não sou das Artes... sou uma educadora... que ensaia escrever sobre coisas do cotidiano a partir do meu olhar e das minhas vivências com e para ele... então sou eu falando de mim. Isso mesmo, é um lugar que eu sou eu e acho que faço arte. E sim eu gosto de pensar sobre Arte, mas não sou acadêmica no assunto.
E bom quando me deparei com esses textos eu pensei “Uau, eu não consigo escrever mais poeminhas de amor...” e eu pensei também “Uau... não são indiretas!”, porque sim, tenho milhares de frases esquisitas que postei no facebook que eram indiretas... inclusive poeminhas... e sem problemas, é muito divertido e libertador fazer isso.
Uma amiga minha dizia que anotava num caderninho minhas frases malucas, e engraçadas postadas, e se alguém fez isso, de coração eu quero elas, para lembrar data e contexto...
Por que eu tô contando isso? Porque a proposta desse post é falar de produção de texto ao longo do tempo, pensando que esse tempo é um tempo muito estranho.

O Tempo
Eu descobri que eu falo sobre o tempo, eu uso falar de mim, de sentimentos, de vivências para contar da minha briga com o tempo.
E o que eu chamo de tempo são várias coisas, mas também é uma coisa bem concreta: medida. Sim, estou falando de matemática, estou falando de horas, dias, anos, segundos.
Estou falando de velhice, de juventude, estou falando de ritmo, de velocidade.
Junto com a grandeza hora, minuto, segundo, vem a ideia de espaço, de metros, aparecem outras grandezas, como aceleração, movimento, gravidade.
Para muitos o tempo é muito subjetivo, mas ele é muito concreto. Eu falo desse tempo. Com um olhar subjetivo, porque o tempo é também a chuva, o calor, o inverno, o frio... e eu estar aqui escrevendo sobre a passagem desse tempo...
Então estou pensando em Ciência, em História, em Economia... em relações de trocas, simbólicas ou não. Estou pensando em narrativas de começo, meio e fim.
Estou pensando em desfechos.

O tempo e os meus textos
Posso estar enganada, mas a ideia de tempo perpassa os meus textos, e agora com um novo grau de complexidade que tem me espantado. Parecia pra mim que antes amigas e amigos, conseguiam gostar porque me liam ao ler meus textos. E agora isso caiu por terra... os textos estão impessoais no sentido de que sinto que avancei nas questões, são questões mais dinâmicas, em que o tempo é algo que expõe o tempo presente: essa coisa superficial, fluída e caótica.

Tentativa de desfecho...
No início desse texto elaborei algo que chamei de processo de criação poético não linear... porque sinto que a linha do tempo, ou a linha de raciocínio não é rígida, seguindo uma estrutura fechada... e que o processo de revisão é um processo de re-visão. Muitos textos publicados no blog, eu quando editei eu novamente coloquei uma nota, acrescentei ao algo ao texto, dizendo que ele foi de um jeito e agora nesse mundo virtual está de outro, para pensarmos essa não linearidade, e a possibilidade que internet tem de provocar a quem escreve de maneira amadora, como eu que possa voltar no texto e re-pensar, a partir de um novo contexto de produção.
Posso de repente ter uma produção linear e meu processo ser muito mais linear do que eu penso... mas estou parando pra pensar sobre meu processo de escrita de algo... que pretendo que seja lido.




segunda-feira, 28 de março de 2016

O PAPEL PODE ACEITAR TUDO?


àS VezEs PoDE sER


Às vezes pode ser o vermelho da flora
às vezes um sorriso gentil
às vezes o gosto amargo e nostálgico
de alguém que ficou um tempo e partiu

Às vezes pode ser devaneio
fetiche, fantasia, uma ilusão
pode ser aquele amor que acalenta
ou uma paixão de verão

Pode ser sorriso de criança
ou um riso sem dente
ou ainda a astucia certeira
 pode ser uma tarde de inverno
com festas e fogueiras

Pode ser todos os cheiros
ou cheiro nenhum
como alguém já me falou
o papel aceita tudo aceita
até mentiras e papos de surdos e mudos


quarta-feira, 2 de março de 2016

Anseios poéticos de uma noite suja II

Ela tentava achar alguma posição confortável, mas tinha tanta coisa na mente, que repousar o corpo na cama era uma dificuldade.
Estava muito ansiosa: o trabalho que não lhe agradava, a crise mundial, a vontade louca de transar com alguém... e a falta de grana.

Faltavam dois dias para receber o pagamento do mês. 
Sem dinheiro nenhum,  não haveria como tomar uma cerveja.
O problema não era a grana em si, mas sim a companhia para a cerveja.
As amigas lindas, gentis, divertidas, mas um saco pra quem há meses não transava... Transar, transar, transar, mulheres realmente pensam muito em sexo... E se tocar no meio da noite já estava estressando-a ao invés de relaxá-la.
Amigos e amigas militantes? Legais. Uma ótima companhia para tomar cerveja na ausência de dinheiro, isso quando eles não estão na mesma pindaíba que ela.  Mas discutir política gera uma tensão sexual...

E ela se revirando na cama ansiosa, sem conseguir relaxar. Olhava para o celular, e pensava:ao menos um cigarro...

Um cigarro talvez...

Maldita hora que resolveu matar todas as possibilidades de uma trepada fugaz, esporádica, espontânea... Momentânea?

Cansada das futilidades da vida noturna, resolveu se preservar mais. Mas qual o mal de uma trepada efêmera, transitória, fast food??

Uma voz, que ela as vezes pensava ser sua consciência  - na verdade apenas um bom conselho de uma amiga sábia -  lhe dizia amor é sexualmente transmissível.

Aiai, tão difícil... Ser mulher, ser humana... ser alguém sem fazer sexo durante muitos e muitos dias...

Tão difícil estar com medo de contrair de enveredar pela transmissão sexual de algo próximo ao afeto. Essa coisa de tesão virar paixão fulminante, é enlouquecedor, viciante. Mas, talvez aliviasse aquele mar de pensa-ações que não deixavam ela encontrar uma posição confortável para dormir.





sábado, 27 de fevereiro de 2016

Curtas

Falaria
Ousaria
Usaria

Iguaria

ANGUSTIAS PERMANENTES II



ENCANTO DOS PÁSSAROS QUE HABITAM A MENTE???

Encantos e prantos
Confeccionam mantos
Recitam mantras ao vento
Soltam suspiros constantemente
E hesitam levemente
Encantos  e tantos
Olhares perdidos
Sorrisos selvagens
Histórias aflitas
Não quero fazer dos versos  flores mortas
Ou pétalas caídas
Não quero jogar belas palavras ao vento
E não sentir ao lê-las o respirar da vida
Quero fazer versos saborosos
Com gosto e cheiro de malícia
Confeccionar alguns mantos
Ao ouvir vozes
Que as vozes me levem para o além
O além-sofreguidão
O além prantos
Tecer uma colcha de encantos
A partir dos mosaicos
Transfigurados de gente
Encantos e santos
Banhados de fé
Criados no cotidiano
Transformados em mito
Seus sorrisos
De tristeza
Seus olhares de sal
Seu sabor de sangue
Recitam prosa, filosofia, estética
A estética do devir
A poética do não dito
Os encantos daquilo quisto
Os pássaros que habitam a mente


ANGUSTIAS PERMANENTES I

Desabafos

Ensaiar palavras a serem ditas
Esboçar versos a serem rimados

Esperar encanto entre os leitores
Que se sintam contemplados com meus dizeres
Que se sintam encantados em meio à desabores
Que entendam que sou amadora e não poeta

Rascunhar sentimentos em corpos
Desenhar com dedos dizeres

Esperar amor do amado
Que se sinta tocado pelos meus dizeres desenhados
Que se sinta tocado com os sentimentos em rascunho
Que entenda que sou amadora e não poeta

Desabar em lagrimas no papel
Criar ideias a serem escandalizadas

Esperar o acolhimento do papel
Que ele não se escandalize com meus versos
Que ele me auxilie na falta de rima

Que entenda que sou amadora e não poeta

Da espera e da busca: poéticas experimentadas


Acredito que textos sempre podem ser editados. Pelo menos, não me proponho escrever de forma estática, com a ideia de que acabou impossível mexer nesse texto. Pelo contrário, me sinto muitas vezes num processo de experimentação da escrita similar a uma criança, que conhece a estrutura do texto, planeja uma ideia, mas começa a ficar difícil de desenvolver e desiste.
Sinto a muitos anos que tenho buscado algo dentro de mim, e em alguns momentos tento descrever essa busca interna... esse texto é algo começado sobre essa busca...

Da espera e da busca

Fiquei quase vinte anos,
Procurava, olhava para os cantos
Havia um pouco de poeira
A estante era arrumada frequentemente
Mas a poeira...  assim como as cinzas de um passado permaneciam
Passaram tantos [...] tantos...
E foram apenas paixões,
Daquelas que se esquecem com um novo verso,
E a procura se fazia, diariamente...
Levou vinte anos para perceber
Como aquilo que eu esperava
Aparentemente distante
Fazia-se presente,
Em todos os dias de minha vida
A sensação que eu tive
É que tanto esperei
Que não vivenciei intensamente

Aquilo que tinha de mais precioso [...]

(TEXTO ESCRITO ORIGINALMENTE EM AGOSTO/2013)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Anseios poéticas de uma noite suja

Era madrugada de um dia qualquer... talvez dias próximos ao carnaval.

Eu imaginava que com os anos as madrugadas se tornariam mais curtas, quase que inexistentes, no entanto, veio a idade, os filhos, as rugas, e as madrugadas se tornaram mais frequentes e longas, com menos emoção e um grau maior de ressaca.

Nas madrugadas não há encontros, não há fantasias... há muita sujeira.

No carnaval talvez mais fantasias, físicas?

Os bailes de carnaval são banais... nada de estonteante em serpentinas e confetes...

Ensaio várias vezes algumas palavras de flerte, mas elas tem se resumido em "Eu tenho escolha" e "Não quero isso pra mim".

Não consigo paquerar, muito menos me colocar numa situação de presa, aliás tenho tido preguiça de sair pra caça.

As madrugadas longas tem se resumido em boas risadas com amigas da mesma idade... que outrora eu acharia velhas, e agora acredito serem as pessoas mais joviais e espirituosas que conheço.

Assim como eu se revoltam com a sujeira das ruas e dos olhares... e quando o desejo é intenso, estão preparadas para um beijo e nada mais, e quem sabe uma boa trepada com uso de preservativo, aliás dois preservativos: não pegarem doenças sexualmente transmissíveis e não contrair nenhuma doença emocionalmente sofrível.

Paixões de carnaval são para acabar na quarta-feira de cinzas.

Aliás, a maioria das paixões que não são de carnaval acabam na segunda-feira, depois do final de semana empolgante.

Na real, paixões, concebidas com requintes cruéis de fogo e malícia estão raras.

Assim, como relações mais sólidas e duradouras, também são raras. Essas estão cada vez mais presente nas amizades, e ausentes naquela coisa afetuosa de coração palpitando, mãos geladas, e barriga cheia de mariposas.

As noites estão sujas, de olhares que nem trazem a limpeza da malícia... até na malícia havia pureza, agora a conversa mecânica, o olhar bem objetivo, se despiu de malícia e deixou espaço para o oportunismo.

Na malícia havia fantasias. Nas fantasias, de carnaval, cada vez menos criativas, há vazios... ocupados por sujeira?


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

SOBRE UMA ÉTICA NAS RELAÇÕES AFETIVAS


Partindo de uma postura ética: ter sinceridade nas relações, eu questiono se é necessário expor tudo aquilo que se sente? De alguma forma nesses tempos estranhos que infelizmente não consigo defini-los em poucas palavras, suponho apenas que estamos muito mais preocupados em nomear ações, sentimentos, atitudes do que vivenciá-los de forma simples e genuína.
Pensar sobre o algo ocorrido, antecipar ações, remoer passado, mesmo que seja um passado recente, tornou-se uma tocante pra além de simplesmente sentir e encarar de forma corajosa o que se sente. E isso gera um estresse desnecessário, e uma tendência a fantasiar a realidade do que simplesmente vivenciá-la.
Leio em blogs uma série de dicas de como fazer com que uma relação casual não seja apenas uma relação casual. Blogs das mais diversas naturezas, com recortes feministas e com recortes consumistas.
Examinemos os primeiros, que são os que mais me interessam a leitura.
Nestes, discutem-se possibilidades de relações menos opressoras, mais sinceras, mais democráticas. Muitas das dicas se relacionam com o não diálogo e com o diálogo. E esses dois marcados pela ideia que criamos da discussão de relações.
Os blogs feministas têm a tendência de enfatizar a necessidade do diálogo, no entanto discutir relações, ter aquela famosa DR, principalmente para o homem, monogâmico, heteronormativo e blablá... soa pejorativo... 
Tenho algumas impressões de que quando se discute relações, de alguma forma busca-se identificar a origem, o porquê, ou mesmo o culpado do erro, do não dar certo.
Será que as pessoas não querem ou não sabem se relacionar?
Voltando para o tema  ou possibilidade da ética das relações,  e aquilo que eu denomino da minha ética das relações afetivas.
Tento me pautar na ideia de não coisificar as pessoas, não padronizar comportamentos, não generalizar atitudes e acima de tudo não criar falsas expectativas. De repente, percebo que minha ética me desumaniza e soa contraditória. É humanamente compreensível criar expectativas, é humanamente compreensível fantasiar e projetar histórias.
Nesse sentido, sinto como se eu perdesse valores, que inicialmente me pareciam saudáveis naquilo que tangencia minhas relações de afeto. Minha ética precisa ser repensada, e repensando penso escrever algumas linhas sobre algumas questões recorrentes, e que pelo momento consigo nomear como sofrimento.
Sim, em alguns momentos eu crio muitas expectativas, expectativas de reencontros, expectativas de palavras afetivas e calorosas soltas no ar, leveza nas relações, há expectativas de uma relação romântica e um grau harmonioso de reciprocidade e cuidado.
Sim, perco a mão da espera, da paciência e do desapego quando me sinto rejeitada, e isso tem relação com uma imaturidade de lidar com o julgamento alheio. Mas também tem relação direta com o ideal romântico destacado acima que impõe e imprime na minha heteronormatividade compulsória a prática da espera e a sensação de rejeição quando não sou correspondida, escolhida.
Para mim, estar numa relação afetiva com alguém não é uma prioridade, e sim uma necessidade social, como tantas outras. Porém como perdi de vista um modelo de relação, por questionar a monogamia, a heteronormatividade compulsória, tenho me arriscado a conhecer diferentes pessoas, e vivenciar outras possibilidades de me relacionar.  O que noto é como ainda me coloco em relações heteronormativas, ou seja, com homens, esses não estão dispostos a se relacionar de uma maneira mais sincera e humana possível, assim reproduzem os papéis, ou se mostram perdidos, porque os papéis se tornaram mais fluidos, menos demarcados e impositivos. Desta maneira será que eles estão dispostos a vivenciar relações mais democráticas? Inclusive em desenvolver um grau de empatia, e compreender e acolher meus limites? 
Meus limites não são mensuráveis ou imutáveis, tem novamente uma tentativa de articular com eles valores éticos, de respeito, autoamor, avaliação e esperanças.
Não pretendo deixar de viver um momento presente com os amigos para resolver algo que me abale.
As amizades, família, filhos/as são prioridade, e as relações sociais que tenho anterior a essa relação afetivo / sexual precisam ser mantidas e são importantes.
Prefiro estar nessas relações, mais consolidadas, sólidas e construídas, do que estar com minha relação afetivo / sexual.
Não pretendo mudar meus planos de curto e médio prazo por eu ter conhecido alguém especial, se é viável, vou tentar conciliar os planos com essa pessoa, de acordo como o relacionamento avança.
Adoro fazer sexo, adoro fazer sexo, e sim, se a relação sexual for ótima, gostaria de me manter próxima a essa pessoa. Mas não tenho uma educação para sexo virtual. Tenho uma ética que procuro estar presente na relação, sendo assim evito transar com várias pessoas quando me proponho a me relacionar com alguém, para conter energia para essa pessoa. E evito me colocar em relações virtuais que se distanciam daquele propósito inicial de sinceridade, e imprimem um certo grau de fantasia, que pode me gerar angustias, ansiedades e inseguranças, pela fragilidade da relação.
E se bater a saudades? Saudades e não carência?
Gosto de ligar, de querer saber como a pessoa está, e serei direta propondo um encontro. Se a pessoa disser que não, irei compreender até o momento que a pessoa queira realmente me ver. Mas tudo isso gera sofrimento.
Se os afastamentos, ausências e indiferença são constantes, sem motivo aparente eu vou me repensar primeiro. Mas eu me repensar antes de acusar, ainda vai gerando fantasias desnecessárias, inseguranças absurdas, e me lembra em muito alguns pontos colocados pelo texto O mito do relacionamento sem cobranças[1], e quando menos percebemos estabelecemos concessões dentro de relações e perdemos a dimensão de que essas concessões nos levam ao sofrimento.
Percebo que essa ética do desapego, essa ética do cuidar de si e pagar de descoladinha não condiz com a realidade de não privilégios.
No mundo caótico, egoísta e erotizado, situações como traições, falta de sororidade, competição e intrigas são recorrentes. Gente se intrometendo, querendo dar conselhos, dizendo o que é certo ou errado está cheio. Muitas vezes no ambiente feminista, em que buscamos apoio, encontramos diferentes julgamentos: trouxa, boba, que não se valoriza. Como filtrar tudo isso?
Como permanecer presente sem o medo da rejeição, da troca, do ciúmes, sem stalkear o outro, sem querer supervisionar o outro? E ao mesmo tempo identificar que um relacionamento sem trocas, sem satisfações é ilusório?
Rever a romantização das relações é um caminho, porém cruel, porque nega a possibilidade de ser sincera com as angustias latentes. Ou perceber que ainda quando não cobramos, estamos sobre a égide de um pensamento romântico que supera a falta de cuidado do outro e reproduz o modelo princesa e príncipe bruto.
Em outro momento acreditei que tudo isso poderia ser superado com autoamor, autocuidado e um bom grau de segurança, no entanto isso é cruel. Relações, são relações, precisam superar o egocentrismo, a heteronomia, e caminhar para outro nível de maturidade, que implica no diálogo com outro. Ainda mais cruel, quando constatamos lá no inicio que tornou-se pejorativo e próprio do gênero feminino cobrar DRs, quando deveria ser uma necessidade humana dialogar sobre problemas latentes. Aqui não quero dizer que em relações homoafetivas não existam esses mesmos problemas, mas possível que muitas devam seguir padrões inicialmente heteronormativos, e ao tentar (dês) construções, explicitar esses mesmos conflitos.
Percebo uma latente no contexto masculino de não falar de sentimentos, de evitar discussões, como se assim os problemas fossem resolvidos. Penso muito na relação de não diálogo com a relação de infância... com a dificuldade de expor sentimentos através de palavras, de nomear as coisas...
Nesse momento retomo a questão: é necessário expor tudo que sente? Se proteger, esconder-se, repelir, agressividade, não cobrar, não traz consigo uma ética do autocuidado? Homens se autocuidam? Ou essa ética ainda transpassa a indiferença, a falta de compromisso, a irresponsabilidade?




[1] http://www.revistacapitolina.com.br/o-mito-relacionamentos-sem-cobrancas/