Há alguns meses comecei a me sentir sem energia. No início, culpei a falta de vitaminas, a ausência de atividade física — coisas que alguém com fibromialgia não pode simplesmente deixar de lado. Mas havia algo estranho: mesmo com a medicação em dia, a fadiga permanecia, insistente, como uma nuvem cinza que não se desfazia.
Sempre fui sensível às questões sociais. E, como vivemos em tempos de guerra, crise política e econômica mundial, pensei que o que me abalava fosse algo distante, maior do que o meu dia a dia. Mas percebi que não. O peso vinha do micro, da rotina que me cercava dentro dos muros da escola.
Coordeno uma unidade com 890 estudantes, só no período da manhã. E nesse cotidiano se acumulam tensões: crianças com deficiência que chegam desreguladas, exigindo um olhar atento e cuidadoso; relações de trabalho desgastadas, algumas até violentas no tom e na forma de trato; e, sobretudo, uma geração de crianças e adolescentes atravessada por sérios problemas de saúde mental. A população atendida pela escola é, em si mesma, o retrato de um Estado que falha em garantir dignidade: famílias precarizadas, jovens sem horizonte, professores sobrecarregados.
Neste ano, ainda enfrentamos uma greve da educação que não nos trouxe grandes vitórias. Fomos punidos com descontos pelos dias parados, e a promessa das reposições se transformou em um peso a mais: para recuperar o salário perdido, era preciso devolver o tempo em jornadas já esgotadas. O ambiente de trabalho ficou ainda mais tenso — entre o desalento coletivo e o esforço individual de sobreviver ao cotidiano escolar.
A vontade de permanecer na cama foi crescendo. O que antes era exceção, virou regra. Até que um dia decidi procurar ajuda. Sentada diante da psiquiatra, contei sobre o sentimento de incompetência, de desvalia, da procrastinação que parecia engolir meus dias. Falei do medo constante de ser uma impostora, do apetite que desapareceu, da falta de disposição para me exercitar, para sair com as amigas, para conhecer gente nova, para simplesmente estar no mundo.
O diagnóstico veio com um nome que eu já tinha ouvido, mas nunca pensei que um dia me alcançaria: síndrome de burnout.
Um mês de afastamento. Um mês para criar uma rotina de autocuidado. Um mês para reaprender a viver sem o relógio da escola me controlando, sem o barulho do corredor me cercando, sem o peso das cobranças me esmagando.
Mas não é simples. O workaholic dentro de mim grita, pede tarefas, metas, resultados. E eu, perdida, tento silenciar essa voz que me empurra para o abismo da exaustão.
Estou reaprendendo a desacelerar. Talvez, pela primeira vez em anos, eu esteja sendo obrigada a ouvir meu corpo, meu silêncio, minha própria vulnerabilidade. Não sei ainda o que virá, mas talvez a lição esteja justamente em admitir que não sou máquina.
O corpo disse basta. E agora é hora de aprender a cuidar de quem sempre cuidou dos outros: eu.
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