quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

SOBRE UMA ÉTICA NAS RELAÇÕES AFETIVAS


Partindo de uma postura ética: ter sinceridade nas relações, eu questiono se é necessário expor tudo aquilo que se sente? De alguma forma nesses tempos estranhos que infelizmente não consigo defini-los em poucas palavras, suponho apenas que estamos muito mais preocupados em nomear ações, sentimentos, atitudes do que vivenciá-los de forma simples e genuína.
Pensar sobre o algo ocorrido, antecipar ações, remoer passado, mesmo que seja um passado recente, tornou-se uma tocante pra além de simplesmente sentir e encarar de forma corajosa o que se sente. E isso gera um estresse desnecessário, e uma tendência a fantasiar a realidade do que simplesmente vivenciá-la.
Leio em blogs uma série de dicas de como fazer com que uma relação casual não seja apenas uma relação casual. Blogs das mais diversas naturezas, com recortes feministas e com recortes consumistas.
Examinemos os primeiros, que são os que mais me interessam a leitura.
Nestes, discutem-se possibilidades de relações menos opressoras, mais sinceras, mais democráticas. Muitas das dicas se relacionam com o não diálogo e com o diálogo. E esses dois marcados pela ideia que criamos da discussão de relações.
Os blogs feministas têm a tendência de enfatizar a necessidade do diálogo, no entanto discutir relações, ter aquela famosa DR, principalmente para o homem, monogâmico, heteronormativo e blablá... soa pejorativo... 
Tenho algumas impressões de que quando se discute relações, de alguma forma busca-se identificar a origem, o porquê, ou mesmo o culpado do erro, do não dar certo.
Será que as pessoas não querem ou não sabem se relacionar?
Voltando para o tema  ou possibilidade da ética das relações,  e aquilo que eu denomino da minha ética das relações afetivas.
Tento me pautar na ideia de não coisificar as pessoas, não padronizar comportamentos, não generalizar atitudes e acima de tudo não criar falsas expectativas. De repente, percebo que minha ética me desumaniza e soa contraditória. É humanamente compreensível criar expectativas, é humanamente compreensível fantasiar e projetar histórias.
Nesse sentido, sinto como se eu perdesse valores, que inicialmente me pareciam saudáveis naquilo que tangencia minhas relações de afeto. Minha ética precisa ser repensada, e repensando penso escrever algumas linhas sobre algumas questões recorrentes, e que pelo momento consigo nomear como sofrimento.
Sim, em alguns momentos eu crio muitas expectativas, expectativas de reencontros, expectativas de palavras afetivas e calorosas soltas no ar, leveza nas relações, há expectativas de uma relação romântica e um grau harmonioso de reciprocidade e cuidado.
Sim, perco a mão da espera, da paciência e do desapego quando me sinto rejeitada, e isso tem relação com uma imaturidade de lidar com o julgamento alheio. Mas também tem relação direta com o ideal romântico destacado acima que impõe e imprime na minha heteronormatividade compulsória a prática da espera e a sensação de rejeição quando não sou correspondida, escolhida.
Para mim, estar numa relação afetiva com alguém não é uma prioridade, e sim uma necessidade social, como tantas outras. Porém como perdi de vista um modelo de relação, por questionar a monogamia, a heteronormatividade compulsória, tenho me arriscado a conhecer diferentes pessoas, e vivenciar outras possibilidades de me relacionar.  O que noto é como ainda me coloco em relações heteronormativas, ou seja, com homens, esses não estão dispostos a se relacionar de uma maneira mais sincera e humana possível, assim reproduzem os papéis, ou se mostram perdidos, porque os papéis se tornaram mais fluidos, menos demarcados e impositivos. Desta maneira será que eles estão dispostos a vivenciar relações mais democráticas? Inclusive em desenvolver um grau de empatia, e compreender e acolher meus limites? 
Meus limites não são mensuráveis ou imutáveis, tem novamente uma tentativa de articular com eles valores éticos, de respeito, autoamor, avaliação e esperanças.
Não pretendo deixar de viver um momento presente com os amigos para resolver algo que me abale.
As amizades, família, filhos/as são prioridade, e as relações sociais que tenho anterior a essa relação afetivo / sexual precisam ser mantidas e são importantes.
Prefiro estar nessas relações, mais consolidadas, sólidas e construídas, do que estar com minha relação afetivo / sexual.
Não pretendo mudar meus planos de curto e médio prazo por eu ter conhecido alguém especial, se é viável, vou tentar conciliar os planos com essa pessoa, de acordo como o relacionamento avança.
Adoro fazer sexo, adoro fazer sexo, e sim, se a relação sexual for ótima, gostaria de me manter próxima a essa pessoa. Mas não tenho uma educação para sexo virtual. Tenho uma ética que procuro estar presente na relação, sendo assim evito transar com várias pessoas quando me proponho a me relacionar com alguém, para conter energia para essa pessoa. E evito me colocar em relações virtuais que se distanciam daquele propósito inicial de sinceridade, e imprimem um certo grau de fantasia, que pode me gerar angustias, ansiedades e inseguranças, pela fragilidade da relação.
E se bater a saudades? Saudades e não carência?
Gosto de ligar, de querer saber como a pessoa está, e serei direta propondo um encontro. Se a pessoa disser que não, irei compreender até o momento que a pessoa queira realmente me ver. Mas tudo isso gera sofrimento.
Se os afastamentos, ausências e indiferença são constantes, sem motivo aparente eu vou me repensar primeiro. Mas eu me repensar antes de acusar, ainda vai gerando fantasias desnecessárias, inseguranças absurdas, e me lembra em muito alguns pontos colocados pelo texto O mito do relacionamento sem cobranças[1], e quando menos percebemos estabelecemos concessões dentro de relações e perdemos a dimensão de que essas concessões nos levam ao sofrimento.
Percebo que essa ética do desapego, essa ética do cuidar de si e pagar de descoladinha não condiz com a realidade de não privilégios.
No mundo caótico, egoísta e erotizado, situações como traições, falta de sororidade, competição e intrigas são recorrentes. Gente se intrometendo, querendo dar conselhos, dizendo o que é certo ou errado está cheio. Muitas vezes no ambiente feminista, em que buscamos apoio, encontramos diferentes julgamentos: trouxa, boba, que não se valoriza. Como filtrar tudo isso?
Como permanecer presente sem o medo da rejeição, da troca, do ciúmes, sem stalkear o outro, sem querer supervisionar o outro? E ao mesmo tempo identificar que um relacionamento sem trocas, sem satisfações é ilusório?
Rever a romantização das relações é um caminho, porém cruel, porque nega a possibilidade de ser sincera com as angustias latentes. Ou perceber que ainda quando não cobramos, estamos sobre a égide de um pensamento romântico que supera a falta de cuidado do outro e reproduz o modelo princesa e príncipe bruto.
Em outro momento acreditei que tudo isso poderia ser superado com autoamor, autocuidado e um bom grau de segurança, no entanto isso é cruel. Relações, são relações, precisam superar o egocentrismo, a heteronomia, e caminhar para outro nível de maturidade, que implica no diálogo com outro. Ainda mais cruel, quando constatamos lá no inicio que tornou-se pejorativo e próprio do gênero feminino cobrar DRs, quando deveria ser uma necessidade humana dialogar sobre problemas latentes. Aqui não quero dizer que em relações homoafetivas não existam esses mesmos problemas, mas possível que muitas devam seguir padrões inicialmente heteronormativos, e ao tentar (dês) construções, explicitar esses mesmos conflitos.
Percebo uma latente no contexto masculino de não falar de sentimentos, de evitar discussões, como se assim os problemas fossem resolvidos. Penso muito na relação de não diálogo com a relação de infância... com a dificuldade de expor sentimentos através de palavras, de nomear as coisas...
Nesse momento retomo a questão: é necessário expor tudo que sente? Se proteger, esconder-se, repelir, agressividade, não cobrar, não traz consigo uma ética do autocuidado? Homens se autocuidam? Ou essa ética ainda transpassa a indiferença, a falta de compromisso, a irresponsabilidade?




[1] http://www.revistacapitolina.com.br/o-mito-relacionamentos-sem-cobrancas/

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