sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Confissão Professoral I


Como confissão escrevo esse texto...
Não sei ao certo o que eu almejo
Talvez pensar apenas que confundo
O uso do S com o Ç
Assim como aquela pequena
Que adquire num processo doloroso
Nos bancos escolares
A perda da infância
Para viver o letramento da vida
[Reprodução não eufêmica de um modo capitalista de viver]
Filas para poder percorrer os espaços
que deveriam ser de criação e liberdade

Crianças, entram cada vez com menos idade
E aprendem cada vez coisas mais complexas
Sem tempo para cantar e sorrir
Para ler e ouvir
Para sonhar e refletir
Tudo é mediado pelo grito

E em alguns momentos de consciência aparece o choro
A professora também queria colo
E poder sorrir e cantar como Maria
No colo de suas companhias diárias

Num momento respiro
Uma criança diz estar cansada
Porque uma colega bateu
A professora, que sou EU
Confessa: “Eu estou muito cansada e quero um abraço”
A criança aperta o adulto contra seu peito
E diz: “Quando chegar em casa eu vou dormir”
Quando eu cheguei em casa eu fui dormir
Eu queria sonhos
De amores,
quem sabe uma nova paixão
Alguém para conter meu tesão
Aliviar a minha tensão

Meu pensamento é que minha liberdade
Perpassa os bancos escolares
Perpassa a sistematização das ideias
Perpassa os estudos sobre a realidade
[e dá mais tesão do que ficar a ver sacanagem]
Dá tesão poder transformar sonhos em realidade
Poder letrar-se do mundo infante
De uma maneira menos torturante
Menos reprodutiva e mais ativa
Mas como a escola de hoje
Com crianças atuais
Crianças do youtube
Crianças dos digitais
Ainda professa, e contem
Os corpos disciplinados em seus bancos
Ainda a loucura do espaço escolar
É vigiar e punir, e talvez ensinar
A heteronomia a partir da tirania
E eu sou algoz e agonia
Sou vítima e vilã
Sou adoecida pelo programa
Programado
Pelo capitalismo financeirizado
Da coisa escola
e ainda a coisa escola pública estatal
Que não dá certo

Ao menos eles se sentem felizes
Ao menos eles conseguem dizer de amar alguém
Ao menos eles declaram seu amor
às professoras
Guerreiras
Cansadas
Batalhadoras
Que vão para casa, sem a sensação de dever cumprido
Pensando o que ficou faltante
Do conteúdo trabalhado
No hospício sala de aula

terça-feira, 18 de setembro de 2018

... carência

Eu sou esquisita
Eu me apaixono por coisa bonita
E por coisa boba
Provocação
Mão na coxa
Expectativa

Eu sou esquisita
Fico toda feliz com um olhar
Sou tão boba que qualquer coisa me faz apaixonar

Então me chama pra real...
As vezes é só um machistinha
Querendo ser legal

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Flu-indo

Eu que preciso tanto de uma morada
De um lugar pra colocar minha bagunça
Tenho sido cigana e sou forte pra caminhada
Nunca imaginei que fosse ser tão abençoada
E ser tão difícil partir...
Já faz tempo que estou por ai
Querendo desenhar girassóis nas costas
Mas não os vejo há meses
A não ser nos sonhos passageiros
Baianos espíritos
Que muitas vezes curam o choro do aflito
Que amortecem o movimento falho
Do giro que pode me derrubar
Mas eu balanço e não caio
Vivo com a pressa de um raio
E o trovão vem me acalmar
Dizer que as vezes respira
Respira menina
E não se põe a falar
Respira e respira
Escuta girassol cantar
Girassol girar
Coração pulsar
Nostalgia bater
Feitiço desfazer
Mandinga acabar

Eu preciso tanto de uma morada
Que me faço na-morada
Da vidinha de feli-CIDADE
talvez eu volte pra morada coletiva
ativa de cultura cinza
e tumultuar de verdades
Eu no meu sonho intenso, de sentimento denso
De secura e bondade
Dou coice e fecho a cara
Minha sinceridade não disfarça
O estrago que eu faço
Eu saio desbaratinada
Aflita e cansada mas eu quero sossego
Também quero chamego
Um beijo bem quente
Um salivar caliente
Mas é que eu tenho MEDO
Medo de ouvir Girassol pulsar
Medo do amor amizade virar
Medo da amizade me apaixonar
Medo da saudade não deixar rumar

E eu vou, querendo falar de flores
Procurando uma morada
Com girassóis na calçada
E eu levo, comigo o meu amor
Meu coração de afeto
Pra espalhar semente
Semente de amizade
Semente de verdade
Semente de impulso
De busca e de luta
Um tanto maluca
De não ficar só

Paixão sempre

Quando me enamoro das coisas
Ai... tudo fica tão intenso
E por mais que pareça denso
De fato é leve
A vida tão breve
Precisar ser levada a sério
Como um mistério
A ser desvendado
É preciso se enamorar dela
Acender vela, fazer oferenda
Pra que a vida seja um eterno poema
Ou uma linda saia de renda

Não é algo tão complicado
Na vida é normal dar errado
E o certo ser algo improvisado
E fugir do esperado
E amar o inusitado
Porque sem expectativa
A vida te ativa
Vários regalos

Eu comi manga
Comi morango
E olhei pro céu
Dia lindo
Tempo quente
Eu vi gente
E me vi no olhar delas
Como uma bailarina
Em um palco coletivo
Em que o canto
O riso é ativo
E a brincadeira
É não desistir de brincar

Eu sempre a me apaixonar
As vezes me perdendo em paixões
Muito mais carência
E medo
Do que o arder da emoção
De ter o sossego
De ausentar-se de si
Fugir e se encontrar
E quando menos espera
Apaixonada novamente
E a vida a me enamorar

Processos de autoconstrução desconstruídos

Disparo o meu respiro raro
E sufoco na saliva quente 
Acordo, estou suada e febril
Encho-me de água
E retomo o sono

As vezes sentimento intenso de abandono
Dama da vida que segue 
Com feridas que 
Estão demorando a cicatrizar 
Ah... o meu lugar?

Que rumo me darão as manhãs?
As vezes eu fico a reclamar
E ultimamente, aprendo
E me lembro 
De agradecer e sonhar 

Havia manga no café 
Houve muito samba no pé
E batuque na mão 
Há anos há muita oração
Pra aprender a cuidar de si
Pra poder doar algo de bom pro outro 

A vida é só um sopro
E eu preciso, de um respiro
Mas talvez minha falta de fôlego
Faz contante meu suspiro
Ou minha pressa pra acontecimento
Faz do suspiro lamento

Disparo em disparate 
Na brisa leve 
Do olhar de lebre 
Que corre vento, corre mato

Disparo e meu disparate 
É negar desejo
Quando houve enlance 
Esquecer de um beijo
Porque a parte que faz agora 
É um novo senso de história
Em que eu em qualquer lugar
Posso ser quem eu quiser 
E não só a mulher
Que vai ser sensualizada
Usada, subjugada e objetificada

A não ser, a não ser meu bem
Que eu lhe peça, que eu queira
Que eu diga, que eu te deseje
Que no encontro
Do meu suor
O seu cheiro se misture ao meu
E o perfume seja irresistível

A não ser meu bem,
Que os dois estejam afim
Porque eu e você podemos dizer não
Eu e você podemos fazer samba canção
E dormir na mesma cama como irmãos.