quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Possibilidades de diálogos feministas: questionamentos preliminares acerca da fala, escuta e do cotidiano.

Sempre me coloquei em defesa dos direitos da mulher, sem muito saber ao certo quais os direitos eu reivindicava, talvez uma questão das vivências que me faz constituir-me enquanto sujeita. Porém ao longo dos anos, em contato com pessoas, porque não quero me referir de forma binária a homens e mulheres, prefiro pensar em pessoas, porque são tantas as possibilidades de ser ou estar algo. Bom, foram algumas dessas pessoas que me colocaram a problemática da questão do gênero e da sexualidade, e sempre tive muitos dedos para tratar do assunto: 1) Porque considero que estou inserida numa sociedade capitalista, machista e homofóbica, e que vários dos meus valores estão inculcados de ideologia dominante; 2) Pela incipiência da discussão que eu tinha travado acerca do tema. Pois bem, hoje percebo que é impossível ser conivente com práticas de controle da moral e do corpo do outro, sei que tenho meus valores, que foram se constituindo historicamente ao longo dos anos, e que tenho dificuldades. Cresci dentro de uma moral cristã, e durante a gestação fiz a opção de ter uma religião, me aproximei da Umbanda, e tenho muito agradecer a doutrina Umbandista e toda a espiritualidade que me cerca. Pois bem, essa é mais uma contradição: como manter valores que dizem respeito ao caráter e travar uma luta contra todas as formas de opressão? Essa é a ideia dessa publicação, pensar enquanto sujeita, e não sujeitada, como estabelecer relações humanas que visam a emancipação? Quais são os reais valores do feminismo. Tenho pra mim por hipótese que eles partem de um viés da interseccionalidade, para pensar as múltiplas possibilidades do ser e estar. No entanto, outras escolhas no âmbito desse processo de constituição do eu foram sendo tomadas, no sentido de pensar uma ontologia, assim, não consigo não considerar categorias como ideologia, alienação e dominação. Assim pergunto: quais as orientações teóricas, que se desdobram em práticas são as mais coerentes para a vida cotidiana? Como me colocar no cotidiano enquanto mãe, mulher, pesquisadora, dona de casa? O paradigma de classe me cabe num contexto em que vivo de um trabalho intelectual? Me insiro num contexto de exploração? Em relação à quais periferias eu sou centro? E em relação a quais centros sou periferia? Devo reivindicar a marginalidade, ou me colocar enquanto intelectual e traçar algumas linhas de análise? Penso que a partir daí, na cotidianidade há que se valorizar, re-significar a escuta e a fala de espaços tipicamente que remetem ao feminino, explicitá-los como espaço de construção coletiva da identidade de gênero e da sexualidade. Pensar como esses espaços tipicamente femininos estabelecem a reprodução de comportamentos/valores/padrões, mas também se colocam como possibilidade de transcender o que já está estabelecido. Sendo assim, como estabelecer nesses espaços de fala/escuta espaços de inter-locução em que as mulheres se percebam. Primeiramente considerar e explicitar privilégios que podem tornar umas e outras, e quando me refiro ao gênero feminino, também penso a possibilidade do outrxs estar inserido nesse contexto, sendo esse outrx um corpo que se reivindica ser feminino, masculino ou transgênero; Retomando, reconhecer privilégios é reconhecer que classe social, raça, gênero, deficiência, maternidade, entre outras questões nos diferenciam, mas também nos aproximam, porque enquanto construção da identidade buscamos esse local de fala/escuta. Em alusão a Escolástica, podemos pensar que esse local de fala/escuta, enquanto espaços de conversas, fofocas, confidências, se constituí como espaço tipicamente feminino que retoma a ideia do confessionário; temos que confessar a alguém nossas práticas desviantes; a confissão em primeira instância se coloca como espaço de aprovação e redenção. Grupo de pessoas ao se colocarem em diálogos, muitas vezes buscam nesse processo de fala e de escuta, ter seus comportamentos aprovados socialmente e se necessário, a redenção principalmente ao que se possa se considerar comportamentos desviantes. Me pergunto como romper e re-significar esse espaço? Percebo que  há outras condicionantes que apontam possibilidades: tratar problemas/temas do âmbito do que convencionou-se ser privado, de maneira pública, dialogada; racionalizar temáticas que as convenções estabelecem que são do ponto de vista do emocional, dessa forma subjetivas, e de difícil objetivação; elaborar sínteses coletivas das experiências; propor práticas e justificativas alternativas aos problemas vivenciados. No entanto, retomando o ponto de que estamos imersos numa formação social em que o preconceito é constituído como forma de separar, hierarquizar, diferenciar e controlar os seres, as limitações desses espaços de fala e escuta estão em: cientificar um conteúdo que pode ser tratado no âmbito de saberes populares, e dessa forma, dificultar as possibilidades de inter-locução, ou mais, a ação de cientificar a discussão acarreta ainda a valorização de um pensamento etnocêntrico, eurocêntrico, pautados em valores que não contemplam as subjetividades presentes nesse espaço, e reforça valores dominantes; subjetivizar e relativizar os problemas, não indo no cerne da questão, naquilo que é radical, e dessa forma cair numa perspectiva multiculturalista, em que tudo pode, e que não há determinações materiais para as possibilidades desses seres se humanizarem coletivamente; reproduzir a prática da fofoca, da culpabilização do indivíduo, do controle do comportamento, quando nesses espaços prepondera a auto-ajuda, o aconselhamento e não a troca; e em última instância reproduzir práticas de opressão...

Esse texto trata-se de um primeiro esforço teórico-prático da blogueira pensar sobre feminismo. Apontei inicialmente algumas questões acerca de onde falo e quem eu sou, e da minha experiência com o feminismo. Hoje eu reivindico o feminismo como forma orgânica de se pensar ações para além de relações binárias, de dominação e opressão da mulher, mas considerando que o debate feminista transcende o debate de gênero, e permite outras intersecções, como a questão da androgenia, da homofobia, da sexualidade, e outras tantas condicionantes. Penso a limitação que tenho pelo contato recente com textos feministas, mas tenho feito o esforço diário para desconstruir tais práticas de opressão/dominação/coação. No entanto, a prática da confissão como maneira de garantir nas minhas relações sociais o respeito, a construção da minha subjetividade tem me tirado o sono. Tensionar o que é público, o que é privado, a constituição das identidades, a alteridade, processos emancipatórios de autonomia, mas sempre considerando o outro como determinante na construção do eu tem sido constante. Não consigo ainda partir da análise do individual, adentrar profundamente matrizes de discussões existencialistas/estruturalistas, porque pra mim a questão social determina uma série de escolhas.
Por fim, trata-se de um esforço de reflexão, apenas...

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