quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Conto de dias quentes

Ela pulsava vibrante. Era de um tom vermelho intenso, que suas maçãs do rosto pareciam ter sido pintadas de carmim.
Ela era assim, alegre, mas melancólica, intensa e insegura.
Não se habitou as novas tecnologias e quase sem querer ficava na espera de um recado, uma escrita, uma troca por meio delas, mas não era mais com todos que a procuravam.
Outrora ela sentia muito prazer em trocar coisas de sentimentos e autoconhecimento com quem quisesse trocar.

Sentou em frente ao computador e começou a deixar a mente fluir, não conseguia pensar num filme, vídeo ou coisa que quisesse acessar.
Só pensava em se tranquilizar, mas não conseguia. Pensava em correr, em pular, em dançar, mas não lembrava uma música, canto, ritmo que a motivasse a ouvir e fluir as sincronicidades de sua alma.

Sincronicidades era uma palavra que nesse momento parecia constante e distante. De repente impulsos menos evoluídos a tomavam, e ao mesmo tempo uma prudência e uma coerência de sublimá-los.
Era como se a nostalgia, a saudade e a novidade dessem um sentido obsessivo para sua existência.

Ela não queria sonhar, e quando sonhava era sobre coisas maiores, sobre luta, sobre resistência e sobre espiritualidade.

Sentia-se num inferno, a casa sem ventilador, a cama quente, o corpo em chamas, e a cerveja esquentando a cada golada que ela entornava.

O choro começava a cair devagar, a cada palavra que ela escrevia pra desabafar o que sentia, e ela tentava com todas as forças descrever. Talvez a palavra pudesse assim, fazer tudo o que a mente e corpo num movimento desconexo afligia.

Ela pensava nos seus guias, e quase que imóvel, não conseguia arrumar as malas para partir.

Releu as linhas que escreveu, e ficou a imaginar que se houvesse leitor para seu texto, ele talvez não ia compreender onde ela queria chegar com aquele desabafo. Não era poesia, nem prosa, era uma descrição pouco organizada das coisas que tinha que fazer.

Pensava que o ano passará num vendaval, e que ele não poderia acabar naquele momento, não sem uma despedida, sem um findar de ciclos.

Na ilusão ela sentia, ou mais, sua intuição dizia, que o ciclo não se encerrava com o findar do ano... o ano por meados de setembro, abriu um novo ciclo de questionamentos sobre a vida, desde a segurança em ter meios de se manter viva, até a insegurança de sua própria existência, que rompia, de alguma forma com padrões socialmente colocados.

Ela não teria como voltar... ao começo, ao início dessa jornada, que ela não conseguia datar... sentia que se tornou uma especialista em fazer planos impossíveis, em viver amores mal resolvidos, em findar coisas sem fim.
Era ela dentro de si, brigando consigo e com o mundo de poesia que construiu.

Lembrou-se de como a criança, as crianças cresceram, de como romperam com o escudo da domesticação, e como se colocavam em guerra com os adultos, ora conformando-se as regras estabelecidas, outrora se afirmando hereges do que os adultos traçavam por futuro.

De repente, se encontra, com a criança, mais responsável, e vê que sem querer construiu um espelho, ela era de fato alguém que essa criança admirava. Alguém que essa criança amava, por sua filosofia, por sua luta, por seu empenho em ensinar.

Ela de fato ensinou várias pessoas nessa vida, e nesse ano em especial, se colocou como professora em diferentes momentos, compartilhando o movimento tímido de se jogar na vida.

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