terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Rascunho de violência editado após dois meses

Eu tenho pensado muito sobre relações abusivas, e percebendo que nunca trata-se de uma escolha consciente vivenciar uma. 
O amor, o famigerado amor romântico, justifica o falar alto, o minorizar o outro, o se auto-afirmar. 
E isso não desaparece em meio a pessoas que tem um discurso mais democrático e inclusivo, pelo contrário, as pessoas muitas vezes usam de um discurso ideal, para escamotear um comportamento punitivo, narcisista, indiferente. 

Palavras doces também se referem a controle, insegurança, egoismo, excesso de vaidades. 

E violências estão sendo cometidas a todo momento, contra os negros, indígenas, crianças, idosos, pessoas com deficiência, e contra a mulher... 

Mas contra a mulher os dados são alarmantes, são pessoas que odeiam mulheres, é uma sociedade que odeia a mulher, e que se aproveita de toda essa circunstância, para esquentar o mercado, colocar polêmicas, mas muitas estão pouco preocupadas em combater a violência, seja ela física, psicológica, patrimonial, moral e sexual... mulheres morrem todos os dias por serem mulheres... 



Não tem volta
Não tem volta a palavra estranha dita mesmo que ao pé do ouvido pra magoar
Não adianta ficar se desculpando
E a todo tempo errando sem se vigiar
Quem se pretende evoluído ser
Tem ao menos, humildade ter
Pra poder caminhar
Num caminho reto, direto e certo de saber amar

Não tem volta o tapa na cara
A cara de marra de quem gosta mais de bater do que de levar
Que não aceita crítica
Que não escuta o outro
Ou interpela a fala, de quem não consegue gritar
Vai minando o caminho
Deixando o outro sozinho
Se sentindo fraco sem nada poder
Será que o opressor não percebe
Que está aos pouquinhos manipulando outro ser?

Não tem volta a marca de bituca de cigarro apagada no braço
O corte que o obstetra fez na vagina sem necessidade
A lembrança do arder da brasa queimando a pele
A lembrança do andar desengonçada quando tem que dar de mamar
Não tem volta, não tem E SE?
E o aqui agora dói
Não dá pra pedir pra o individuo esquecer seu trauma
Quando um falar grosso aciona os gatilhos da violência

Não tem volta se libertar de uma relação abusiva
Se olhar no espelho e recuperar a auto-estima
E deixar que outra relação
Faça a mesma violação
Você se defende com tudo pra não entrar em outra
E se entra, você deixa a culpa de lado
E enfia o foda-se na cara do camarada
Chora, come, grita, se rasga
Mas quando você se liberta
Fica mais difícil aceitar ser violentada

E daí que eu falei o que você não queria ouvir?
E porque eu tenho que com você dormir?
E de repente se eu não to mais nem ai?
Não use como desculpa o seu amor
O seu amor é teu
E o meu amor próprio é meu
Bem maior do que qualquer promessa que você me faça
Eu posso até achar graça, achar fofo
Mas eu prometi pra mim mesmo que não ia ter volta
Não ia ter volta
Não ia viver mais um tapa
Não ia mais viver mais um desaforo
E se eu te aceitar de volta
É pra você dizer que errou
E que tá aprendendo a não fazer mais
Que não justifica o seu sentir ciúmes
Não justifica qualquer sentimento nobre
Você me xingar e me chamar de vaca
Ou você abusar de mim enquanto eu queria descansar

Não tem volta o tapa na cara que você me deu
Porque se eu silenciei naquele momento e você achou que eu estava concordando
Quando por dentro eu estava sem ação
Ninguém espera ser agredida do nada
A não ser quando provoca
E mesmo quando a raiva é excitada
Não justifica seu tapa
Seu puxão de cabelo
As coisas horríveis que você fez pra mim
Não vão voltar...


Esse texto teve um rascunho escrito em setembro desse ano, após passar por uma situação de discussão sobre violência doméstica, medo de sofrer violência com uma pessoa que eu me relacionava. Após essa discussão, em que foi um gatilho para eu me desestabilizar emocionalmente, houve uma nova discussão, em que o sujeito propôs romper a relação porque não conseguia manter um relacionamento com uma mulher que se dizia feminista. 

Uma pena...

Uma pena que nessa data, mesmo sabendo da situação em que eu estava inserida não consegui terminar a relação. 

Esse sujeito acredita que as mulheres passam por violência porque não conseguem resistir. Certamente ele está correto, se não há apoio, de alguma forma, fica difícil perceber situações de abuso e violência, mesmo que muito sutis. Entendemos tudo como assuntos de casal, e que uma hora eles se acertam... que bom que hoje temos avançado, se acertar diz muito mais respeito a se separar, romper a relação, do que insistir em algo que não está dando certo.

E foi assim o desfecho. Um final feliz!!!

A relação terminou, e entendo que muitas relações devem terminar com mulheres podendo escrever textos e publicar coisas sobre elas. Inclusive sem o penar de se sentirem culpadas pelo término da relação, ou ainda, impotentes de poder seguir em frente.

Sim a culpa é minha de estar sozinha. Eu que quis assim e estou muito bem!!! 







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