Anula-ação
Eramos um par de
sapatos separados pelo destino. Assim eu pensava com meus sonhos borboleteados
de estrelas-cadentes ao luar.
Ansiosa, esperava o dia
de encontrar o meu outro pé de sapatos e caminharmos juntos por ai, como se um
belo sapateiro tivesse nos criado, para andar infinitamente lado a lado como um
par.
Eu estava desacostumada
a andar junto, às vezes meus passos eram mais lentos, às vezes mais acelerados,
às vezes um descompasso sem fim. Porém, nada disso era indiferença, era um
pouco de costume de andar de Saci-Pererê por aí, borboleteando sonhos, sozinha buscava
um dia me tornar estrela com brilho próprio.
De inicio esse sapato
velho, ao compasso do meu sapato surrado não ofuscava meu brilho estrelar, pelo
contrário, andava em compasso satélite, orbitando em minha vida, de forma
estratégica se aproximando lentamente de meu cotidiano.
O sapato velho furado,
vulgo meu par ideal, repetia o mantra de não fazer planos, mas plantava a
semente de sonhos, como morar juntos, ter casa, ter filhos. Mas para tanto eu
precisava me entregar à paixão. Isso me parecia algo terno e oportuno, paraquem
há anos não tinha um companheiro de caminhada, mas me parecia com um pé de
sapatos asas, que se recusava a por os pés no chão, quando atrelado a uma
constelação de sonhos, estava o mantrado não criar expectativas.
Como fazer esse
malabarismo?
Estar numa relação não
estando?
Requeria ao menos um
pouco de indiferença, de frieza no afeto, de meticulosidade. Algo quase que
psicótico, estar com alguém e não sonhar ser ao menos habitante de seus afetos
era algo de dificil mediação com o romantismo latente.
Eu então me nutria de
concretude, e colocava limites para poder me valer de estrutura emocional. Um
pé de sapato velho furado, não era algo tão sedutor a ponto de me fazer anular
os caminhos que eu perneta saltitava.
Fazia-me forte,
borboleteando nos meus sambas, em meus estudos, meus planos, minhas aberturas
de caminho, e se sobrasse tempo me colocava a disposição para caminhadas
parceiras.
Isso começou a ser um
problema para o caminhar em par, o excesso de carência do sapato velho furado,
sem planos ou concretudes de escolhas, me fazia sentir culpada de não estar
sempre disponível, sempre sorrindo, sedutora, animada.
Eu ficava muito
cansada, além de caminhar perneta por estradas que me seduziam, me faziam
apaixonada pela vida, eu também perneteava no mercado de trabalho, nos afazeres
domésticos, familiares e maternos.
Era muita energia que
eu implementava em todos esses projetos,
projetos de uma pessoa real, perneta, mas, real. E me sentia muitas vezes
impotente por não conseguir acompanhar as loucuras, ou disgreções do outro
perneta.
O outro perneta foi
ficando menos perneta que eu, foi encontrando pares de sapatos solos, que
poderiam caminhar com ele em períodos de minha ausência, ou até começou a
mantrar sem expectativas com relação a nossas caminhadas parceiras.
Tornou-se um pesar
caminhar junto, algo como uma cobrança. Mas eu não era um pé de sapato
possessivo, mimado, eu era apenas sensível a silêncios e ausências
intencionais.
Minhas ausências não eram
frequentes, ou algo egoista ou individualista, eram ausências necessárias para
eu ser um pé de sapato único, antes de ser cópia identica ao outro pé, e
comecei a me ver bem diferente daquele pé de sapato surrado. Comecei a me ver tão
surrada quanto, um pouco fosca, e pouco ocupada, como se meu excesso de ócio
fosse algo inconsciente pra ficar disponível para caso o pé de sapato quisesse
estar comigo eu estar próximo.
Comecei a me sentir
sozinha, sem caminhadas em parceria. A parceria só seria certeira e correta, se
fosse proposta do pé de sapato surrado. Se eu escolhesse um percurso próprio, o
pé de sapato se perdia, se escondia, ou me ofendia, coisas que me assustaram.
Comecei a ver que não
foi fruto do acaso termos sido separados, o período que fiquei distante,
fizemos escolhas e percursos próprios, que dificultavam nosso caminhar
parceiro. Também percebi que os motivos que nos levaram a não estar juntos
durante um longo período não se relacionava ao afeto construído, mas a
dificuldade de consolidar vinculos mais sólidos entre os dois.
O meu pé de sapato
estava no chão, e caminhava na nuvem tentando concretizar sonhos. O outro pé
sonhava o tempo todo, que não era nada ruim sonhar, mas sonhava
individualmente, e tinha uma facilidade de empreender coisas individuais, ou de
liderar o outro, de maneira autoritária. Qualquer coisa que não fosse ideia
inicial dele parecia algo incompreensivel ou impensavel de empreender junto.
Era como se permitir que o outro empreendesse escolhas próprias carecia dele se
anular.
Será?
Eu caminhando perneta, refletia,
e comecei a me ver obscecada. Comecei a me perceber uma perneta sem rumo, sem
apoio, sem outras estradas pra rumar, todas as estradas tinham sido abandonadas
e encaminhadas para um único lugar: o sapato surrado, sujo que gozava de uma
vida individualmente boa. Comecei a me sentir um fardo a ser acompanhado pelo
outro sapato. Algo mais sujo que ele, mais surrado, e mais desnorteado. Um sapato
perneta sem lustre, sem brilho...
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