segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Anula-ação

Anula-ação

Eramos um par de sapatos separados pelo destino. Assim eu pensava com meus sonhos borboleteados de estrelas-cadentes ao luar. 
Ansiosa, esperava o dia de encontrar o meu outro pé de sapatos e caminharmos juntos por ai, como se um belo sapateiro tivesse nos criado, para andar infinitamente lado a lado como um par. 
Eu estava desacostumada a andar junto, às vezes meus passos eram mais lentos, às vezes mais acelerados, às vezes um descompasso sem fim. Porém, nada disso era indiferença, era um pouco de costume de andar de Saci-Pererê por aí, borboleteando sonhos, sozinha buscava um dia me tornar estrela com brilho próprio.
De inicio esse sapato velho, ao compasso do meu sapato surrado não ofuscava meu brilho estrelar, pelo contrário, andava em compasso satélite, orbitando em minha vida, de forma estratégica se aproximando lentamente de meu cotidiano.
O sapato velho furado, vulgo meu par ideal, repetia o mantra de não fazer planos, mas plantava a semente de sonhos, como morar juntos, ter casa, ter filhos. Mas para tanto eu precisava me entregar à paixão. Isso me parecia algo terno e oportuno, paraquem há anos não tinha um companheiro de caminhada, mas me parecia com um pé de sapatos asas, que se recusava a por os pés no chão, quando atrelado a uma constelação de sonhos, estava o mantrado não criar expectativas.
Como fazer esse malabarismo?
Estar numa relação não estando?
Requeria ao menos um pouco de indiferença, de frieza no afeto, de meticulosidade. Algo quase que psicótico, estar com alguém e não sonhar ser ao menos habitante de seus afetos era algo de dificil mediação com o romantismo latente.
Eu então me nutria de concretude, e colocava limites para poder me valer de estrutura emocional. Um pé de sapato velho furado, não era algo tão sedutor a ponto de me fazer anular os caminhos que eu perneta saltitava.
Fazia-me forte, borboleteando nos meus sambas, em meus estudos, meus planos, minhas aberturas de caminho, e se sobrasse tempo me colocava a disposição para caminhadas parceiras.
Isso começou a ser um problema para o caminhar em par, o excesso de carência do sapato velho furado, sem planos ou concretudes de escolhas, me fazia sentir culpada de não estar sempre disponível, sempre sorrindo, sedutora, animada.
Eu ficava muito cansada, além de caminhar perneta por estradas que me seduziam, me faziam apaixonada pela vida, eu também perneteava no mercado de trabalho, nos afazeres domésticos, familiares e maternos.
Era muita energia que eu implementava em  todos esses projetos, projetos de uma pessoa real, perneta, mas, real. E me sentia muitas vezes impotente por não conseguir acompanhar as loucuras, ou disgreções do outro perneta.
O outro perneta foi ficando menos perneta que eu, foi encontrando pares de sapatos solos, que poderiam caminhar com ele em períodos de minha ausência, ou até começou a mantrar sem expectativas com relação a nossas caminhadas parceiras.
Tornou-se um pesar caminhar junto, algo como uma cobrança. Mas eu não era um pé de sapato possessivo, mimado, eu era apenas sensível a silêncios e ausências intencionais.
Minhas ausências não eram frequentes, ou algo egoista ou individualista, eram ausências necessárias para eu ser um pé de sapato único, antes de ser cópia identica ao outro pé, e comecei a me ver bem diferente daquele pé de sapato surrado. Comecei a me ver tão surrada quanto, um pouco fosca, e pouco ocupada, como se meu excesso de ócio fosse algo inconsciente pra ficar disponível para caso o pé de sapato quisesse estar comigo eu estar próximo.
Comecei a me sentir sozinha, sem caminhadas em parceria. A parceria só seria certeira e correta, se fosse proposta do pé de sapato surrado. Se eu escolhesse um percurso próprio, o pé de sapato se perdia, se escondia, ou me ofendia, coisas que me assustaram.
Comecei a ver que não foi fruto do acaso termos sido separados, o período que fiquei distante, fizemos escolhas e percursos próprios, que dificultavam nosso caminhar parceiro. Também percebi que os motivos que nos levaram a não estar juntos durante um longo período não se relacionava ao afeto construído, mas a dificuldade de consolidar vinculos mais sólidos entre os dois.
O meu pé de sapato estava no chão, e caminhava na nuvem tentando concretizar sonhos. O outro pé sonhava o tempo todo, que não era nada ruim sonhar, mas sonhava individualmente, e tinha uma facilidade de empreender coisas individuais, ou de liderar o outro, de maneira autoritária. Qualquer coisa que não fosse ideia inicial dele parecia algo incompreensivel ou impensavel de empreender junto. Era como se permitir que o outro empreendesse escolhas próprias carecia dele se anular.
Será?
Eu caminhando perneta, refletia, e comecei a me ver obscecada. Comecei a me perceber uma perneta sem rumo, sem apoio, sem outras estradas pra rumar, todas as estradas tinham sido abandonadas e encaminhadas para um único lugar: o sapato surrado, sujo que gozava de uma vida individualmente boa. Comecei a me sentir um fardo a ser acompanhado pelo outro sapato. Algo mais sujo que ele, mais surrado, e mais desnorteado. Um sapato perneta sem lustre, sem brilho...




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