Não é tão tranquilo escrever sobre si. Provavelmente aqueles que se dedicam algumas horas como interlocutores pensam: porque essa pessoa se expõe tanto. Outros devem sentir-se com empatia ao ler anseios de alguém que vive constantemente rodando em círculos tentando achar o centro de tudo, que é conhecer a si mesmo.
Ao mesmo tempo deve parecer um exercício egocêntrico falar de si, mas eu asseguro que venho muitas vezes tentando construir a alteridade, ou seja, entender o que se passa aqui dentro pra poder me relacionar melhor com o externo.
Após essa breve introdução do ensaio desse texto, o que eu quero dizer é que as lembranças perpassam muitas vezes sofrimento e nostalgia. A nostalgia para mim não tem um significado ruim, é a vontade de viver de novo alguma lembrança, buscar ter de novo aquela sensação. Muitas vezes ela é confundida com saudades, e saudades é algo mais complexo, porque envolve o sentir falta, mas não necessariamente reviver uma sensação.
O mais complicado das saudades, é quando não se pode construir novas memórias, ou porque houve um rompimento intenso com aquilo que nos faz falta, ou porque houve uma perda, então, sentimos saudades, e eu pelo menos tento fazer o exercício de encher o peito de tranquilidade e confortar-me, para que a nostalgia não me consuma.
Eu não terei de novo 20 anos, não posso voltar no tempo para salvar alguém que morreu, ou refazer um percurso, eu posso novamente fazer um percurso, mas esse percurso será uma nova experiência...
Nesse texto não busco dialogar com teóricos que falaram sobre isso, simplesmente de forma muito amadora e até vulgar somente quero falar de lembranças...
Há pouco tempo perdi uma amiga querida, e que sinceramente acho que não temos nada que ficou ausente, a não ser uma viagem pra praia, e ver nossos filhos crescerem juntos, mas sei que era o que deveria acontecer... sei que era o que deveria acontecer mas sinto saudades, nostalgia do tempo de faculdade, e tristeza pela perda... acho hipocrisia falar que tá tudo bem quando alguém que gostamos tanto fica no nunca mais... nunca mais ver, nunca mais abraçar, nunca mais ter conversas longas no telefone...
Ao mesmo tempo penso esse lugar do nunca mais nos amores, nas partidas, nas chegadas, nas idas e vindas e nas conquistas... e isso tem me sido perturbador...
Nunca mais democracia??
Nunca mais direitos humanos??
Há coisas que não são apenas nostálgicas, são trágicas e arrasadoras... após alguns crimes ambientais esse nunca mais vem como um soco na boca do estômago, e penso com meus botões: não foi algo que teria que acontecer, poderia ter sido evitado e não foi. Como lidar com isso??
Sinceramente, meu exercício diário de me conhecer para conhecer o outro, faz com que minha alteridade não fique ausente da revolta.
A revolta se faz presente não como saudade, ou nostalgia, mas como rebeldia.
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