segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ironia II


Era pra ela parar de chorar enquanto bebia água
Era pra ela parar de soluçar de chorar enquanto sua amiga contava:
- Matilde, as pessoas não se telefonam não se ligam, não comem juntas, não contam coisas do cotidiano. Não compartilham o café da manhã.
Ela soluçava!
A amiga com uma frieza entornava um gole de conhaque, velho, barato, escuro, e voltava a dizer:
- Matilde, não adianta soluçar. Para nós, nós não somos alguém para ser levadas pra jantar. Não somos alguém que se namora no sofá, ou frequenta almoços de família. Somos apenas lanchinhos. Algo passageiro que dá um sopro de esperança para a freguesia.
Ela se olhou no espelho, e pegou a garrafa de conhaque servindo um trago a si. Olhando no espelho, tomou seu primeiro gole, e se olhou bem confiante, parando de soluçar:
- Não somos prostitutas sua louca! Somos pobres professoras, com nível superior, pós-graduação. Como as coisas ficaram loucas! Mulheres estudadas na solidão.

Era pra ela ser feliz! Estudou, com muito esforço, terminou sua graduação numa universidade pública, realizou sua pós, iniciou seu mestrado e logo conseguiu um concurso de professora, assim como amiga que dividia a casa. Mas sentiam-se, ambas solitárias. Cada semana começavam coisas novas. A amiga uma série nova, ela um esporte, atividade física, artistica, cultural... e o vazio... sem fim...

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