sábado, 13 de junho de 2020

desabafos desencontrados


A voz ressoou pesado:
- Talvez você não queira se relacionar.
Veio como um soco essa constatação do outro, porque era o outro, querendo acolher meu suposto desinteresse, de ser interessante? Para quem? Para o outro.
Passei o dia revirando entre banho, cozinha, espelho, cama, livros, lives, pensando sobre o que significava essa frase. Algo do tipo que colocava culpa em mim por não estar dentro de uma relação.
Eu realmente não quero perder o sono, não quero minha casa desorganizada, não quero ter que partilhar meu alimento e no dia seguinte ficar sem o que comer.
Talvez não tenha paciência para ouvir os devaneios do outro, quem sabe eu não queira realizar fantasia sexual de ninguém.
Não quero correr riscos, do tipo de uma gestação indesejada, ou de uma doença sexualmente transmissível.
Não quero meu corpo sendo cansado pelo corpo de outro que vê meu corpo e alma como objeto.
Soa-me traumático, constatar, que sozinha minha bagunça e organizada, que sozinha eu posso ser o que quiser, e que junto de alguém, parece que frustro qualquer expectativa de estar com alguém, parece uma dança descompassada, que ao invés do prazer do encontro, há a necessidade das coisas desencontradas se estranharem, e se punirem.


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