A voz
ressoou pesado:
-
Talvez você não queira se relacionar.
Veio
como um soco essa constatação do outro, porque era o outro, querendo acolher
meu suposto desinteresse, de ser interessante? Para quem? Para o outro.
Passei
o dia revirando entre banho, cozinha, espelho, cama, livros, lives, pensando
sobre o que significava essa frase. Algo do tipo que colocava culpa em mim por não
estar dentro de uma relação.
Eu
realmente não quero perder o sono, não quero minha casa desorganizada, não quero
ter que partilhar meu alimento e no dia seguinte ficar sem o que comer.
Talvez
não tenha paciência para ouvir os devaneios do outro, quem sabe eu não queira
realizar fantasia sexual de ninguém.
Não quero
correr riscos, do tipo de uma gestação indesejada, ou de uma doença sexualmente
transmissível.
Não quero
meu corpo sendo cansado pelo corpo de outro que vê meu corpo e alma como
objeto.
Soa-me
traumático, constatar, que sozinha minha bagunça e organizada, que sozinha eu
posso ser o que quiser, e que junto de alguém, parece que frustro qualquer
expectativa de estar com alguém, parece uma dança descompassada, que ao invés do
prazer do encontro, há a necessidade das coisas desencontradas se estranharem,
e se punirem.
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